Livro de Ezequiel – Mês da Bíblia 2024

 


“Colocarei em vocês o meu Espírito e vocês reviverão” (Ez 37,14)

 

1. Nome, origem e ministério.

               Não sabemos quando nasceu. Provavelmente na infância conheceu algo da reforma de Josias, sua morte trágica, soube da queda de Nínive e da ascensão do novo Império Babilônico. Ezequiel, cujo nome significa ‘Deus fortaleça’ ou ‘Deus é forte’ era sacerdote do templo de Jerusalém e profeta da corte, em oposição aos profetas do campo, como Miquéias e Jeremias. Sendo de família sacerdotal, foi formado na escola teológica da monarquia davídica. Contemporâneo da queda de Jerusalém (587), Ezequiel parece ter começado a sua pregação na capital palestina, antes de dar-lhe sequência e termo entre os deportados de Babilônia. Assim se explicaria a minuciosa descrição de todos os gestos idolátricos realizados no Templo (Ez 8). É mais viável pensar que toda a atividade do profeta se tenha desenvolvido em terra de exílio, para onde ele teria sido levado antes da destruição de Jerusalém, depois da primeira invasão de Nabucodonosor (588).

               É na Babilônia que se desenvolve a atividade daquele que era e continua a ser um sacerdote, especialista em todas as coisas do culto (40—48) e cuja vida se encontra repentinamente transtornada. Dois eventos decisivos se produzem: a irrupção da glória de Deus, que faz desse sacerdote um profeta, e a queda de Jerusalém, que o muda de pregador da condenação para pregador da salvação.

 

2. Estrutura do Livro e sua mensagem.

               Depois da vocação do profeta (1,1—3,21, vem os oráculos que anunciam o julgamento de Jerusalém (3,22—24,27), o castigo das nações (25—32) e a restauração do povo aniquilado (33—39); finalmente se esboça o perfil da montanha sobre a qual aparece a capital do povo renovado (40—48).

 

- Experiência de Deus e percepção da realidade.

               Em meio a uma grande nuvem, um fogo em forma de redemoinho; quatro seres vivos voam, sustentando um ‘firmamento’, sobre o qual está um trono. Acima, há ‘como que o aspecto de um homem, com um esplendor ao redor de si... É o aspecto da glória do Senhor’ (1,4-28). O profeta está em vias de reviver a experiência de Isaías. Ele recebe a revelação esmagadora da transcendência do Senhor, da Glória d’Aquele que é o Rei de toda a terra (Is 6,3). Esmagado por essa revelação, Ezequiel percebe sua pequenez; em face da Glória, ele não passa de um ínfimo e derrisório ‘filho do homem’, hesitante, aturdido (1,28; 2,2; 3,4-17.22; 37,1; 40,1); sobre ele, a ‘mão do Senhor’ caiu (8,1) pesadamente (3,14); sobre ele vem o espírito do Senhor (2,2; 3,24), cai (11,5), para arrebatá-lo (3,12.14; 8,3; 11,1.24; 43,4).

               Mas a Glória sai do Templo e se afasta de Jerusalém (11,22-23). Por quê? Como? Ezequiel descobre no pecado de Israel o motivo de tão dolorosa separação e se empenha em dimensionar-lhe a gravidade, a extensão, a profundidade. O profeta descobre a raiz da infidelidade à qual Jerusalém se entrega orgulhosamente. Não tem Jerusalém uma origem pagã, ela que descende de pai hemorita e de mãe hitita (16,3); e a prolongada permanência de Jacó-Israel no Egito, onde Deus ‘jurou com mão estendida, e disse: “Eu sou o Senhor vosso Deus’” (20,5), devia ter as mais funestas consequências: daria a Israel essa paixão pelos ídolos, à qual depois ninguém saberia renunciar (Ez 20).

 

- A queda de Jerusalém.

               Foi este o segundo acontecimento capital na vida de Ezequiel. Instigado a não deixar transparecer seu pesar (24,15-27), deve ter sentido uma dor pelo menos igual à de seus companheiros de deportação. Ezequiel reage; põe-se a anunciar o castigo para as nações cujos sarcasmos intensificam a dor dos vencidos. Israel não será o único a sofrer o julgamento: eis que o profeta, arauto trágico, reduzido até aqui ao anúncio de uma desgraça inelutável, transforma-se em pregador de salvação. Já os seus oráculos anteriores não haviam excluído todo motivo de reconforto.

               Haverá um Resto (cf. 6,8-10; 9,4-8; 11,13; 12,16; 14,22.23), mas tão irrisório, tão frágil (11,13), reduzido talvez aos cadáveres amontoados em Jerusalém (11,7), que sua evocação não pode impedir os exilados de perder sua débil esperança. Então o profeta, sentinela atenta, se posta na brecha. Os mortos viverão, proclama ele; o Senhor saberá fazê-lo reviver ao sopro impetuosos de seu Espírito.

               Resgatados dos lugares de sua dispersão, os exilados serão reunidos e reintroduzidos na terra da Promessa, para ali viver uma vida ideal. Então o reino, outrora dividido em dois, será reunificado (37,15-28); o povo não será mais entregue às malversações de chefe indignos (34,1-10); ele será guiado pelo cajado do Senhor que se tornou o pastor de seu povo (34,11-16). Quanto ao descendente de David, ele terá papel próprio a desempenhar: será príncipe ‘no meio deles’ (34,24).

 

3. Mês da Bíblia e conclusão.

               O versículo proposto para esse ano vem do contexto do capítulo 37 do livro. Um texto fascinante. Por meio de visões, Deus comunica ao profeta suas palavras e ações, e a imagem que se desvela aos olhos de Ezequiel é inquietante. À primeira vista, a visão pode ser assustadora. O texto bíblico nos leva até um vale. Contudo, a paisagem não é agradável aos olhos; não há sinal do verde das plantas, do canto dos pássaros nem do colorido das flores. O ambiente parece reduzido à ausência de vida. Impera o silêncio e a morte. O que, porém, se vê no vale? ‘A mão do Senhor pousou sobre mim e espírito do Senhor me levou e me deixou num vale de ossos’ (v. 1). O profeta é convidado a andar por entre os ossos a fim de confirmar que não há o menor indício de vida. Eram muitos os ossos e estavam extremamente secos. O que representavam? A visão é explicada exclusivamente aos exilados da Babilônia. O povo de Israel é comparado a cadáveres em sepulcros, situação que não permitiria vislumbrar nenhuma possibilidade de esperança (v. 11b). Todavia, há diferentes modos de ver a vida: na perspectiva dos olhos e do projeto de Deus ou na perspectiva dos olhares demasiadamente humanos que se afastam de Deus. Contra a desconfiança dos deportados, que pensam já estarem destinados ao túmulo, Deus lhes assegura que fará o milagre da restauração: pelo poder do seu espírito, a vida será maior do que a morte e, vivos, retornarão à terra natal. Então, todos reconhecerão que é tudo obra de Deus e de ninguém mais (v. 13-14). 

               Diante de um ambiente de extermínio, morte e desfalecimento, é proposto um projeto de descontinuidade. Ou seja, a nova criação não será simplesmente um melhoramento progressivo do que já existe; ao contrário, a velha criação, bem como o coração de pedra (36,26), dará lugar a realidades completamente novas: uma nova criação e um coração de carne. Não se trata, portanto de um projeto de continuidade, mas sim de ruptura!

               A imaginação profética de Ezequiel cria uma imagem impensável: os ossos escutam as mesmas palavras proféticas que os vivos não escutavam e obedecem a elas. Mencionado oito vezes, eles simbolizam os mortos, o passado marcado pela tragédia, e se referem àquilo que nega a vida, aquilo que se corrompe dia após dia para terminar em pó; os ossos não são nada, pois com base neles não é possível construir comunidade. De sua parte, o Espírito de Deus – que também aparece outras vezes – é a força vital que aponta para o futuro, potencializa a recriação da realidade e da vida e, com isso, põe ordem no caos. Contudo, a maestria do relato faz que as duas realidades não se oponham, mas se cruzem quando, sob o comando do profeta, os ossos que estão mortos ganham vida a partir do momento em que o espírito neles se encarna.  

               Ezequiel, num movimento de vaivém, é um mestre no uso de imagens: o mesmo espírito que o havia colocado em pé, no relato de sua vocação, agora é responsável por colocar em pé uma multidão que estava reduzida a ossos. Espírito que se encontra tanto em relação com o indivíduo quanto em relação com a comunidade. Espírito que revitaliza tanto um quanto o outro. Nessa dinâmica é possível encontrar a esperança em meio aos dramas da vida, ou seja, em meio aos vales de ossos ressequidos do cotidiano.  

Mês da Bíblia – 2023 – Carta aos Efésios (Carta do Cativeiro)


1. Éfeso

            Segundo Atos dos Apóstolos, Paulo havia visitado brevemente Éfeso na sua viagem de Corinto a Jerusalém (At 18,18-22), dando início a uma comunidade que deixou aos cuidados de seus colaboradores Priscila e Áquila. Ao retornar a Éfeso para continuar a evangelização ali iniciada, Paulo prega por três meses na sinagoga e, por mais dois anos, serve da escola de Tiranos para seu apostolado (At 19,1-20).

Éfeso era uma das grandes cidades do Império Romano. No tempo de Paulo, devia ter 600 mil habitantes. Uma cidade de posição estratégica tanto a nível comercial, por causa do seu porto, e do ponto de vista religioso. Lá estava o templo de Ártemis, a deusa da fertilidade e da vida. Sendo cidade portuária e recebendo gente de diversas culturas e religiões, sobretudo Egito e do Oriente, era também um importante centro cultural, sendo então famosa a Biblioteca de Éfeso.

Paulo escolhe Éfeso como uma base de apoio para seu trabalho missionário. Permanecendo ali por cerca de três anos, pôde fundar mais de uma comunidade em Éfeso e alcançar as regiões vizinhas da Ásia Menor, fundando lá também mais comunidades, entre os anos de 52 e 57.

 

2. Onde e por quem foi escrita.

Paulo teria escrito essa carta no período de sua última prisão em Roma, entre os anos 61 e 63. Nas últimas décadas se têm questionado se a mesma foi escrita por Paulo e se teria sido enviado tão somente aos cristãos de Éfeso, pois antigo manuscrito não consta o nome Éfeso. Teria sido então uma carta circular onde o destinatário teria sido acrescentado depois? Tal teoria vem do fato da Carta não tratar de um assunto ou situação específica ou resposta à comunidade sobre um problema concreto como nas demais cartas.

A carta poderia ter sido escrita por um discípulo do Apóstolo tempos depois com o objetivo de propor como uma síntese de toda a mensagem de Paulo para as novas gerações de seguidores de Jesus, por volta dos anos 90 na Índia já não existiam os apóstolos.

A carta aos Efésios, juntamente com Colossenses, Filipenses e Filêmon, é considerada uma das cartas do cativeiro, pois nela há diversas menções à prisão de Paulo (3,1; 4,1; 6,20).

 

3. A carta

Podemos dividir a Carta aos Efésios em duas partes principais. A primeira, nos capítulos 1 a 3, é mais doutrinal, apresentando o ministério de Cristo e da Igreja, ou seja, o plano ou a vontade de Deus para a humanidade, ao agir por meio de Cristo e da Igreja. A segunda parte, nos capítulos 4 a 6, é mais exortativa, trazendo indicações de como os cristãos, salvos pela graça e pela fé em Cristo, devem comportar-se em família e em sociedade para testemunhar a vida nova em Cristo.

O autor de Efésios apresenta Jesus Cristo glorioso como a cabeça do corpo que é a Igreja universal. A preocupação não era mais tanto com as diferenças entre os seguidores de Jesus de origem judaica e os de origem pagã, mas com o que unia as igrejas no único corpo de Cristo. Ou seja, uma igreja que se define sobretudo pela unidade, e não mais pelo conjunto de igrejas diferentes e espalhadas pelo mundo. O tema da unidade aparece, sobretudo, nos capítulos 2 e 4 (4,4-16). Em Jesus Cristo, de fato, vive-se uma nova realidade, na qual todos, judeus e gentios, pela graça, como puro dom de Deus, foram salvos por meio da fé (2,8). A nova humanidade em Cristo implica um novo modo de viver, implica o desafio de abandonar a velha humanidade (4,22-24).

No terceiro capítulo, fala-se do mistério da salvação. Esse mistério é o plano de Deus: seu projeto de, em Cristo, salvar toda a humanidade. A missão do apóstolo Paulo é ser ministro desse projeto de fazer o Evangelho chegar a todas as nações (3,1-13). Segue, então, uma súplica (3,14-19) para que o amor que é raiz e alicerce, habite os corações pelo Espírito. A vivência do amor de Cristo forma a nova criatura.

Os capítulos 5 e 6 trazem, sobretudo, uma catequese ou ensinamento sobre o novo modo de se comportar dos que vivem segundo a nova humanidade em Cristo. A razão ou a motivação para o novo modo de vida é o próprio amor de Deus, manifestado em Cristo (5,1-2). Outras instruções se referem às relações entre marido e mulher, marcadas pela sociedade patriarcal daquele tempo (5,21-33), e que desafiam as comunidades de hoje a resgatar o protagonismo original que as mulheres tinham nas comunidades paulinas. Do mesmo modo, trata-se da convivência entre pais e filhos, entre patrões e escravos, destacando-se o respeito mútuo.

Antes das saudações finais, a carta circular compara a vida cristã a um combate (6,10-17). Os seguidores de Jesus devem armara-se como os soldados de então, com a armadura de Deus, o cinturão da verdade, a couraça da justiça, o escudo da fé, o capacete da salvação e a espada do Espírito, que é a Palavra de Deus.

 

O EVANGELHO DE MATEUS – ANO A


Introdução: A Bíblia, antes de ser escrita teve sua mensagem sentida, vivenciada, discutida e comunicada de pais para filhos, de catequistas para catequizandos (Dt 6,4-9.20-25). A experiência de um Deus presente em sua vida, em suas vitórias e derrotas. Experiências contadas, recontadas, cantadas e rezadas. Assim o texto nasce como revelador da presença de Deus na vida e passa a ser reverenciado como texto sagrado.

            Quando o caminho pela frente parecia muito escuro, o povo relia o texto sagrado para que sua luz se esparramasse pela vida afora. O texto era como uma lanterna nas mãos do povo para iluminar o caminho a seguir: “Tua Palavra é lâmpada para os meus pés, e luz para o meu caminho” (Sl 119,105).

            O texto de Mt também nasceu do dia-a-dia das comunidades espalhadas pelo norte da Galiléia e Síria entre os anos 80-90 d.C. A experiência da comunidade, da pessoa de Jesus foi tão forte, que elas diziam e repetiam: Ele está no meio de nós! (1,23;18,20;28,20).

            Na base do evangelho de Mt está a missão de Jesus, o Semeador do Reino. Os ensinamentos e parábolas de Jesus nascem de sua experiência de homem do campo, como vemos na parábola do semeador (13,4-9), um pequeno retrato da vida dos camponeses do tempo de Jesus: um solo árido, pedregoso... não obstante os obstáculos, o semeador realiza seu trabalho confiante na qualidade da semente que está lançando. Ela servirá de comparação para mostrar o que acontecerá com o Reino de Deus. Apesar de toda a resistência, ele chegará a uma plenitude inesperada. Como a semente lançada ao chão produziu fruto, a Boa Nova de Jesus, expressa por sua vida, palavra e prática, fez surgir os Evangelhos.

 

I – Estrutura do Evangelho de Mateus. Como texto catequético para as comunidades que viviam a sua fé na presença de Jesus, em meio a muitos problemas internos e externos, é possível perceber que Mt juntou, organizou, acrescentou ou modificou as várias tradições orais e escritas das palavras e da prática de Jesus para responder à situação concreta de suas comunidades.

            Não esqueçamos que o evangelho de Mc já circulava no meio das comunidades. 80% de seu texto aparecem em Mt. Tanto Mt como Lc tiveram outras informações além de Mc, uma fonte que reúne os ditos ou palavras de Jesus. Além dessas duas fontes, vamos encontrar elementos que só aparecem em Mt; provavelmente tradições orais antigas com acréscimos da comunidade e da redação final de Mt.



Um olhar mais atento nos leva a perceber que Mt, para destacar o que considera mais importante para suas comunidades, organizou seu material de maneira muito precisa. A idéia mais importante fica no centro (11,1—13,52), enquanto as outras idéias vão sendo organizadas ao redor, de forma paralela. Partindo dessa possibilidade de estruturar o evangelho de Mt, podemos ter uma proposta de estudo do mesmo.

 

II – Proposta de estudo. Usando uma comparação. A Bíblia é como um coco. Dentro dela existe uma água viva que reanima a nossa esperança e fortalece o nosso caminhar. Mas é preciso um método, uma ferramenta para quebrar esse coco e deixar jorrar água viva da qual estamos sedentos. O nosso estudo é uma ajuda. Queremos chegar à experiência do Deus da vida, o Deus-amoroso, que as comunidades de Mt registraram no seu evangelho. Pois só a vida produz vida.

            Alguns passos importantes deste caminho: A. Escolher um local adequado, para rezar e refletir. Criar um momento propício para o encontro com a Palavra. Pedir luzes ao Espírito Santo. Abrir-se para o diálogo com Deus através da Palavra, da comunidade e da realidade. Ler e reler atentamente o texto escolhido. Procurar informações. Situa-lo no tempo e no espaço. As introduções e notas contidas na própria Bíblia podem ajudar muito neste momento. B. Observar a linguagem, os detalhes, em comparação com outros textos paralelos nos outros evangelhos que estão indicados em algumas edições. Anotar as semelhanças e as diferenças. Elas nos indicam o contexto do texto. C. Captar a realidade que está por trás do texto. Surgem as perguntas que fazemos ao próprio texto: quais são as relações sociais e os conflitos presentes nas relações? Personagens e situação, posicionamento de Jesus, etc... Ver nas entrelinhas... Às vezes, o que não está dito é mais importante do que está dito... D. Descobrir o que Deus nos fala hoje. É o momento de ligar a nossa vida com a vida das pessoas do texto. O Deus presente na história do povo bíblico está e estará presente na nossa vida, falando conosco a partir de nossa realidade. E sua fala é sempre um apelo a um compromisso pessoal e comunitário com a vida, com o outro, com a transformação da história. E. Ao final é o momento de pedir a Deus a graça e a força de colocar sua Palavra em prática. É a hora das preces.

            Cabe ressaltar que o mais importante é o texto bíblico e o nosso compromisso com a realidade em que vivemos. A leitura da Bíblia é condicionada pelo lugar social e pelas opções da pessoa ou da comunidade que a lê.

 

III – Contexto histórico e social. Desde o ano 63 a. C., a Palestina tornou-se uma colônia de Roma, mas os judeus gozavam de certa autonomia, sobretudo no campo religioso, desde que pagassem os devidos impostos ao império. Mt nos dá informações sobre os territórios e seus respectivos governantes (14,3; 27,2). O Templo era o centro da vida social e econômica dos judeus, casa de oração (21,13), local de peregrinações, sacrifícios e ofertas, mas também servia de banco, cartório, tesouro público. A observância estrita da Lei era colocada como exigência do próprio Deus, apresentado com uma rígida imagem de grande rei, justiceiro e castigador.

            Na Palestina havia vários partidos com posicionamentos diferentes em relação ao Império, ao Templo e à expectativa de um Messias (saduceus, fariseus, escribas). O povo era oprimido por estrangeiros e compatriotas, nesse ambiente eram comuns revoltas e levantes.

            Os cristãos, que começavam a se reunir nas casas, pouco a pouco foram se distanciando do Templo. Diante do clima de revolta, saíram de Jerusalém e se espalharam para o além Jordão, norte da Galiléia e Síria.

            No ano 70 d. C., Jerusalém foi tomada pelo exército romano. Após a destruição do Templo, os vários grupos de fariseus e escribas se empenharam na organização e definição da vida e crença do judaísmo. Estes se encontram em competição e conflito com outros grupos como os judeus cristãos. Quando terminou a guerra judaica, o Império Romano se apropriou das terras produtivas dos judeus. A situação da Galiléia, que já era ruim, piorou. Muitos agricultores se tornaram arrendatários, empregados, meeiros e até escravos. No evangelho de Mt há várias parábolas de Jesus que evidenciam o que estava acontecendo. Ricos que moravam fora, arrendavam terras (21,33), outros exigiam dos meeiros mais do que podiam (25,26), sem falar na realidade do desemprego (20,1-7), escravidão (18,23-26), roubos (21,34-39) e exploração do outro (18,27-30).

            O evangelho de Mt surge dessas comunidades do norte da Galiléia e Síria, constituídas de pessoas pobres e exploradas. Comunidades com a presença marcante de Judeus (5,47; 24,20), comprovada pela preocupação de Mt que insiste em mostrar a importância da Lei (5,17-19) e em citar o AT. Nessas comunidades podemos encontrar também muitos judeus com a mentalidade helenista, ou seja, gente que não estava presa à Lei e ao Templo. Além disso, havia estrangeiros fazendo parte das comunidades, haja vista a preocupação de Mt com a missão aos estrangeiros (28,19). Essas comunidades constituíam uma das opções para os grupos judeus no período pós-70.

            Eram muitos os problemas enfrentados, assim as comunidades tiveram de criar instituições, organizar papeis e funções de seus membros, definir normas de comportamento dentro e fora do grupo. Esses fatos moldaram as comunidades que estão por trás do evangelho de Mt e lhe deram características especiais: comunidades mistas e em contínua tensão; inevitáveis conflitos em torno da Lei; conflitos com as comunidades judaicas; controvérsias a respeito da vinda imediata do Senhor, gerando desânimo, mas também vigilância ativa, preocupação com a prática do amor (16,27; 25,31-46) e anúncio da vinda do Senhor.

            Assim podemos compreender que o evangelho de Mt foi resultado não de um só autor, mas as comunidades participaram da redação do mesmo. O local mais provável da redação final é Antioquia, na Síria (cf. At 13).  

 

IV – Desenvolvimento do esquema proposto (pistas).

 

INTRODUÇÃO (1—2)

Ø  “Livro da origem de Jesus Cristo”. (1,1) – lembra o Gn (criação) => em Jesus, inicia-se a nova criação da humanidade.

Ø  Genealogia – muito característico da cultura judaica; ligada a identidade de uma pessoa. Mt quer recordar que Jesus tem profundas raízes no povo eleito. Ele é o Messias prometido; fruto final de uma história de buscas, lutas e vitórias. Diferente de Lc, Mt organiza a organiza em 3 blocos de 14 gerações – inclui cinco mulheres; todas elas com algum problema em relação à lei judaica. Todas eram, de certa forma, excluídas. Jesus é o Messias legítimo, mas de uma família marcada por essas presenças femininas; ultrapassando o racismo, a lei do puro e impuro, numa perspectiva do pobre.

Ø  Jesus é o Deus conosco! (1,18—2,12). – O Filho de Deus tem mãe humana; a iniciativa de Deus encontra acolhida em Maria e resistência em José. Seu modo de ser justo deve ser revisto: a verdadeira justiça que Deus quer é a defesa radical da vida, nas pessoas de uma mãe solteira e de uma criança em gestação. José aprende a colocar a vida acima da lei. O nome do menino: Jesus – “Deus salva” – elimina a separação entre Deus e o ser humano. Os fatos que se desenvolvem em torno do nascimento salientam sua importância (a estrela, cf. Nm 24,17) e também que sua presença é ameaça para alguns e esperança para outros (2,1-23).

Ø  O novo Moisés (2,13-23). A matança dos meninos faz referência ao que aconteceu no Egito, numa constante referência ao AT, Mt busca nas profecias a confirmação para a autoridade de Jesus e ao mesmo tempo apoio para a fé e a vida de suas comunidades. Eis que Jesus nos é apresentado como novo Moisés. Ele é a síntese do mistério da vida, onde Deus toma a iniciativa de oferecer vida, e a humanidade, representada por Maria, acolhe esta vida. O Espírito de Deus que produz vida quando a receptividade e abertura.


I LIVRO: JUSTIÇA DO REINO (3—7)

Ø  Se Jesus pode ser apresentado como semeador, qual a semente que ele espalhou?

Ø  A chegada do Reino (3—4). João Batista prepara a vinda do Reino com o Batismo de conversão (3,1-12). É no deserto que tudo começa para o antigo e o novo povo de Deus. Novos tempos se aproximam; não basta pertencer ao povo eleito. A diferença entre João Batista e Jesus fica clara no batismo que conferem (nas comunidades, havia ex-discípulos de João Batista) e o papel de cada um. O fato de pertencer a comunidade não salva por si só; tudo depende da prática da justiça do Reino. Só em Mt aparece o diálogo entre Jesus e o Batista na hora do batismo.

Ø  A narrativa da tentação está profundamente ligada com o batismo, onde o Espírito de Deus revela quem é Jesus. A este o Espírito leva ao deserto para ser tentado, como o povo no tempo do êxodo (Ex 17,1-7). As três tentações refletem o clima apocalíptico, as expectativas messiânicas do povo da Palestina de tornar Israel uma grande nação, um sonho muito presente nas comunidades de Mt mesmo depois de tantos anos da morte e ressurreição de Jesus. Ele não é um messias triunfalista, demagógico. Ele é a presença de Deus no meio do seu povo. Jesus inicia seu ministério na Galiléia, uma região de judeus e gentios. Aqui Jesus é apresentado como luz para o mundo (4,16). Aqui aparecem os primeiros discípulos.

Ø  Em síntese: Jesus era o filho muito amado que fazia tudo que agradava ao Pai (3,17). Ele supera Moisés porque respondeu às necessidades da vida do povo, que iam muito além do pão. Nas suas comunidades, havia lugar para todos e sua ação libertadora não tinha fronteiras.

Ø  Esta experiência das comunidades nos convida a uma revisão da nossa vida cristã. Um dos pontos de avaliação é o conceito de salvação que carregamos. A participação numa instituição religiosa não dá carteira de cidadão do Reino para ninguém (3,9). Conseguimos captar essa imagem de um Deus solidário com os excluídos?

Ø  O sermão da Montanha (5—7). O primeiro grande discurso. Aqui se apresenta a prática de Jesus como fundamento da nossa maneira de agir, da Igreja que deve ser coerente com a chegada do Reino do Céu.

Ø  Particularidade: se no passado foi Moisés que subiu ao Monte, aqui, o povo sobe com Jesus. Em Jesus o divino e o humano se encontram. Como Moisés ele sobe ao monte, como Deus, ele fala ao povo. Ele é Deus entre nós. Mt apresenta as bem-aventuranças em número de oito, são a síntese da nova lei ou a lei messiânica. Elas retratam de maneira muito clara a situação externa e interna das comunidades que foram perseguidas pelas lideranças judaicas e pelo império romano por causa do evangelho e da nova justiça. Isso está claro na última bem-aventurança. As comunidades que procuravam viver as bem-aventuranças, eram o sal da terra e a luz do mundo.

Ø  A questão da lei (5,17-48). Alguns viam em Jesus um libertador da Lei de Moisés, outros, que Jesus queria cumpri-la nos seus mínimos detalhes. Na realidade a intenção de Jesus não era uma nem outra. Jesus mostra que a Lei apenas aponta para a vontade de Deus. Ela não tem em si a força de realizar esta vontade. Ele observa a lei enquanto reveladora do que o Pai quer. O que não ia bem era no que a lei tinha se transformado: observância mecânica e lucrativa para os bolsos das elites religiosas. Para fazer-las entender ele retira cinco exemplos, indo até a sua raiz, ou seja, busca seu objetivo último que é a defesa da vida.

Ø  A nova lei e a nova obediência dos discípulos é viver uma vida de filhos de Deus reproduzindo sua bondade nos relacionamentos cotidianos. Mais do que a norma, a proposta do Evangelho é fazer da vida um contínuo ato de discernimento das situações.

Ø  Em que se baseiam nossas relações com Deus e com o outro?

Ø  A prática da justiça (6,1-18). Através de três obras de piedade da época, Mt mostra a oposição entre a prática de Jesus e a prática dos fariseus e escribas. O princípio básico é que as obras de piedade não podem ser usadas para ganhar privilégio diante das pessoas e assim adquirir poder. Tal comportamento bloqueia o relacionamento filial com Deus, que nos ama gratuitamente.

Ø  Buscar o Reino de Deus (6,19-34). A comunidade é chamada a escolher a proposta do Reino e deixar para trás tudo o que é anti-reino expresso na justiça que provoca pobreza, miséria, destruição da vida. O espelho para se auto-avaliar e discernir são as bem-aventuranças. O evangelho não nega as preocupações com a comida, casa, saúde, roupa, etc. Esta é a realidade do povo que vive num sistema injusto. A proposta do evangelho é orientar estas preocupações no rumo da solidariedade e da partilha que constroem o Reino. 

Ø  O critério da prática da justiça: fazer ao outro o que gostaríamos que nos fizessem (7,1-28).

 

SEGUNDO LIVRO: UMA JUSTIÇA QUE LIBERTA OS POBRES (8—10)

Ø  O semeador faz surgir as comunidades cristãs (8,1—9,34). Três momentos: a exigência para pertencer ao novo povo; a missão entre os gentios, e a prática de Jesus. Para pertencer ao novo povo é necessário fazer opção pelos pobres e marginalizados e excluídos (8,1-17); na comunidade há lugar para todos; esta opção faz com que atravessemos as fronteiras de raça, pais e se dirija para a outra margem (8,18—9,13); a prática de Jesus cria um novo povo que sabe celebrar a presença do Reino no seu meio (9,13-34).

Ø  Missão do Semeador e das comunidades cristãs (9,35—10,42). Os conflitos internos e com as lideranças judaicas, somadas à perseguição romana, enfraquecia o empenho missionário. Em resposta a esta situação temos o discurso de Jesus sobre a missão.  


TERCEIRO LIVRO: UMA JUSTIÇA QUE PROVOCA CONFLITOS (11,1—13,52)

Ø  Junto com o trigo brotou também o joio, o que dificulta a colheita. O centro do evangelho.

Ø  Incompreensão e hostilidade (11-12). Primeiro temos uma grande revisão do que foi visto até agora: a identidade de Jesus (os discípulos de João); rejeição da elite (11,16-19) e cidades onde estão as sinagogas. Onde alguns rechaçam a pessoa de Jesus, os pobres e os pequenos acolhem (11,25-30). No atrito entre Jesus e os seus opositores está a interpretação e a prática da lei (12,1-14). Jesus mostra quem ele é a partir da imagem descrita pelo profeta Isaias (12,15-21). Imagem não muito agradável em Israel. Jesus amplia o horizonte e constitui o novo povo formado de judeus e não judeus, onde há lugar para todos os que acolhem o desígnio do Pai expresso nas bem-aventuranças. Neles Jesus reconhece a sua família (12,46-50).

Ø  O mistério do Reino do Céu (13,1—52). Através de sete parábolas, Jesus apresenta a natureza surpreendente do Reino do Céu. Na parábola do joio e do trigo, Mt tenta explicar como no Reino e na Igreja coexistem filhos e filhas do Reino e filhos e filhas da iniqüidade. Há que se esperar pacientemente o fim do mundo, quando virá o Filho do Homem para separar uns e outros. É esta a mesma situação da comunidade hoje.

Ø  O Reino do Céu está aí com toda a sua potencialidade e força. As comunidades não podem desencorajar-se diante das perseguições. Nessas circunstancias, o juízo final assume um valor pedagógico para Mt estimular a sua Igreja no seu compromisso de vida. É preciso fidelidade na prática da palavra de Jesus. O reino é comparado a uma pérola e a um tesouro. Vale a pena empenhar a vida na luta por ele.

 

QUARTO LIVRO: O NOVO POVO DE DEUS (13,53—18,35).

Ø  O novo povo de Deus é desafiado no seu crescimento pelas forças de destruição presentes na história. Para resistir, faz-se necessários cuidados especiais para que o fruto cresça e nada se perca.

Ø  O semeador e o novo povo de Deus (13,53—17,27). Uma grande narrativa em torno da pergunta: quem é Jesus? Ou: quem são as comunidades dos discípulos de Jesus? O comprometimento com a causa da justiça é o ponto de encontro daqueles que seguem Jesus. É a comunidade cristã que continua a presença e a prática de Jesus, o Semeador, no meio do mundo. Como deve se comportar a comunidade? Qual a mística que sustenta a comunidade?

Ø  A comunidade dos pequeninos (18,1-35). Instrução de Jesus a seus discípulos. Aqui se encontra a síntese da experiência das comunidades de Mt. A idéia básica é a gratuidade do amor de Jesus, que faz a moldura do texto (vv 1-5;23-35). Esta deve ser a raiz do comportamento dos membros das comunidades cristãs. Sem esse espelho, podemos nos tornar meros executivos da lei e cometer abusos de poder. No centro da cap. Mt coloca Jesus Ressuscitado, presente no meio da comunidade (vv. 19-20), eixo do evangelho.

 

QUINTO LIVRO: A VINDA DEFINITIVA DO REINO (19—25)

Ø  O texto insiste nas instruções de Jesus a seus discípulos: uma parte narrativa (19—23) que mostra que o Reino é para todos e uma parte discursiva (24—25) que convida à vigilância ativa e aponta o futuro do reino a ser construído pela prática da justiça baseada na misericórdia.

Ø  Instruções do Semeador aos seus discípulos (19—23). Ele sobe a Jerusalém; no caminho vai formando os seus discípulos. Dá-se o confronto decisivo com os eleitos que o condenarão e entregarão ao poder romano para que o matem. Mt insere várias parábolas que retratam a rejeição de Jesus (21,28—22,14).

Ø  Discurso escatológico: a vinda do Filho do Homem (24—25). No cap. 24,1-44 o evangelista combina o anúncio da destruição de Jerusalém com achegada do fim do mundo. E acrescenta ainda algumas parábolas para incentivar as suas comunidades a esperar o fim do mundo numa vigilância ativa: 24,37—25,30, praticando o amor e a misericórdia, porque este será o grande julgamento quando Jesus voltar: 25,31-46.

 

CONCLUSÃO: A PÁSCOA DA LIBERTAÇÃO (26—28)

Ø  É o auge do conflito, o Semeador dá a vida por sua lavoura. As comunidades cristãs estão desanimadas e necessitam de uma razão forte para sobreviver. Eles relêem a paixão de Jesus à luz da Páscoa e das Sagrada Escrituras e concluem: o Semeador do Reino é Jesus, o filho muito amado do Pai, que faz tudo o que lhe agrada. Sua morte foi conseqüência de sua fidelidade à vontade do Pai, expressa nas escrituras. Ele a assumiu livremente. Ele esteve, está e estará presente no meio do povo até o fim do mundo (20,20; cf. Ap 1,8).

Ø  Paixão e morte de Jesus (26—27). Um tipo de catequese para ajudar as comunidades cristãs a crescer na fé e sustentá-las na perseguição. O grande enfoque é a relação de Jesus com seus discípulos, que agora vêm o outro lado da cena da transfiguração (17,1-8), embora não tenham entendido nem uma coisa nem outra!

Ø  A ressurreição de Jesus (28,1-20). Não há nos evangelhos a pretensão de descrever como foi a ressurreição de Jesus, mas a situação das comunidades frente a este fato. Assim percebemos que este capítulo é quase todo exclusivo de Mt. Percebe-se que a comunidade precisava explicar o sumiço do corpo de Jesus, em resposta às dúvidas que circulavam nessa época. Tal boato, conclui Mt, foi espalhado pelo judaísmo. Neste texto as comunidades de Mt dão o troco, dizendo que seus adversários subornaram os guardas. O novo encontro com os discípulos se dará no lugar de sempre: na Galiléia. A insistência nesta região é para mostrar que Jesus Ressuscitado é o mesmo Jesus de Nazaré que iniciou sua missão na Galiléia, terra dos gentios (4,12-17). E o lugar do encontro com o Ressuscitado é na comunidade, assumindo a sua mesma prática de justiça e fraternidade.

Ø  Ao final, o texto se apresenta como uma pequena catequese para responder a certas dúvidas sobre o que significa crer na ressurreição. Jesus sempre usou o seu poder para executar e proclamar a vontade do Pai e para concretizar, aqui e agora, o seu Reino. A comunidade sabia que também havia recebido esses poderes (9,8;10,1) e era portadora da semente do Reino entregue por Jesus (5—7). A ressurreição abre esse mundo novo. Jesus é o Senhor da História. Com esse poder Jesus envia a comunidade dos seus seguidores ao mundo, a todos os povos (24,14;25,32), para continuar sua missão anunciada pelos profetas (Is 42,6,49,6;60,3). Jesus está presente no duro caminhar das comunidades, com a força da ressurreição. Jesus ressuscitado não é um fantasma. Ele é o mesmo Jesus da Galiléia, Messias dos impuros, excluídos. Ressuscitar é seguir esse Jesus, Semeador do Reino, com a prática da nova justiça, a partir da misericórdia e da solidariedade.

 

Fonte: “Ele está no meio de nós! O semeador do Reino” – O Evangelho de Mateus – CNBB – Síntese: Pe. João Bosco Leite.                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                             

Livros Históricos – Josué

 

Introdução: os que aqui chamamos de livros históricos, podem ser também identificados como livros proféticos. Na bíblia hebraica: Josué, Juízes, Samuel e Reis são considerados “profetas anteriores”, em contraposição aos “profetas posteriores” como Isaias, Jeremias, Ezequiel e os 12 profetas menores. São assim chamados, por tradição, por causa da sua composição: Josué seria o autor do livro que leva o seu nome; Samuel teria escrito Juízes e Samuel, e Jeremias seria o autor de Reis.  Tal tradição se justifica pelo caráter religioso que lhes é comum: as relações de Israel com Deus, sua fidelidade ou infidelidade, sobretudo a infidelidade à palavra de Deus, cujos porta-vozes são os profetas. Nestes livros, os profetas intervêm com frequência: Samuel, Gad, Natã, Elias, Eliseu, Isaias, Jeremias e outras figuras de menos destaque.

O estudo atual os considera livros históricos, e ocupam a maior parte do AT. Neles encontramos a história de Israel e do judaísmo, desde a conquista da terra prometida até quase a época do NT. O que temos nestes livros não é uma crônica de fatos, mas uma interpretação de acontecimentos a partir da fé, e a serviço dos problemas e interesses de situações bem determinadas. Podemos dividi-los em quatro grupos:

A. Josué, Juízes, 1 e 2 Samuel, 1 e 2 Reis. Formam um relato mais ou menos contínuo, apresentando a história do povo desde a conquista da terra até o exílio da Babilônia. Tais livros mostram que a história de Israel depende da atitude que o povo toma na aliança com Deus. Se o povo é fiel à aliança, Deus lhe concede a bênção, que se concretiza no dom da terra e na propriedade. Se o povo é infiel, atrai para si mesmo a maldição, que se traduz em fracasso histórico e perda da terra.

B. 1 e 2 Crônicas, Esdras e Neemias. O tempo pós-exílico babilônico. A preocupação básica é fundamentar e organizar a comunidade depois do exílio da Babilônia. Para isso, seus autores repensam toda a história do povo, a fim de fundamentar a vida da comunidade judaica e sua forma de governo, polarizada pelo culto no Templo de Jerusalém.

C. Rute, Tobias, Judite e Ester. Mais do que história propriamente dita, esses livros são novelas ou romances. Sua intenção é apresentar modelos particulares de vivências e aplicação da fé dentro de situações difíceis, principalmente as enfrentadas pelos judeus fora de sua terra.

D. 1 e 2 Macabeus. Relatam a resistência heroica de um grupo de judeus diante da dominação estrangeira que ameaça destruir a identidade cultural e religiosa da comunidade judaica.

O conjunto histórico que agora vamos estudar (Js, Jz, Sm e Rs) é um grande “evangelho”, um anúncio que procura suscitar a conversão e a esperança. Para nós ele se torna um convite a também lermos a nossa história através da bênção e maldição, da fidelidade e da infidelidade ao projeto de Deus. É possível rever a nossa história, descobrir os erros que a paralisam e projetar a ação que abre o futuro da esperança.

 

1. O Livro de Josué. Relata acontecimentos situados no sec. XIII a.C. – a conquista e partilha de Canaã, a terra Prometida, pelas tribos de Israel. À primeira vista, o livro apresenta a tomada global da Terra, feita por uma geração. Isso se deve a idealização do autor. A conquista foi, de fato, um processo longo e lento, ora pacífico, ora violento, que só terminou dois séculos mais tarde, com o rei Davi.

 

- Os padres da Igreja reconheceram, a partir da figura de Josué, que do começo ao fim é o personagem principal, uma prefiguração de Jesus: não apenas tem ele o mesmo nome, salvador, mas também a passagem do Jordão, que, com ele à frente, da entrada na Terra Prometida; é a imagem do batismo de Jesus, que nos dá acesso a Deus; a conquista e a divisão do território tornam-se a imagem das vitórias e expansão da Igreja.

 

- O grande tema do livro e a Terra Prometida. O povo que havia encontrado seu Deus no deserto, recebe agora a sua terra, e a recebe do seu Deus. Deus combate em seu favor e lhes dá em herança o país que prometera aos Pais.

 

2. Divisão do Livro: em três partes:

1ª – Cap. 1—12 – A conquista. A narrativa se restringe a uma área, tendo como pano de fundo o santuário de Guilgal, próximo de Jericó. Este está situado no território da tribo de Benjamim (narrativas provindas dessa tribo e de Efrain). A preocupação é de dizer, explicar fatos, nomes de lugares, edificações e ruinas para uma geração que vive muito tempo depois.

2ª – Cap. 13—21 – A Partilha da Terra entre as tribos. Serve dos documentos geográficos que descrevem as fronteiras das tribos e que remontam à era pré-monárquica, de listas de lugares e cidades, provenientes do tempo da monarquia.

3ª Cap. 22—24 – O fim da vida de Josué. Consta de três conclusões: retorno das tribos transjordânicas para seus territórios (22); último discurso de Josué (23); aliança em Siquem e morte de Josué (24).

 

3. Considerações gerais.

- Nos encontramos diante não de uma crônica, mas de uma interpretação dos fatos para mostrar o significado da conquista de Canaã. A personagem principal é a Terra Prometida: Deus realizou a promessa feita aos patriarcas e renovada em seus descendentes. O povo foi libertado da escravidão do Egito para ser livre e próspero na terra que Deus ia dar. Por trás das longas e minuciosas listas de lugares devemos ver a alegria e a gratidão pelo dom de Deus.

- O que chama a atenção é o fato do povo ter que conquistar a terra que Deus lhe deu. Deus concede o dom, porém não suprime a liberdade e a iniciativa do homem. Pelo contrário, supõe e exige que o homem busque e conquiste o dom de Deus. A terra é fruto da promessa e dom divino e, ao mesmo tempo, da aspiração e da conquista do homem. Em outras palavras, Deus promete por dentro das aspirações do homem, e realiza seu dom por dentro das conquistas do homem.

- O livro de Josué constitui um impecável tratado sobre a graça de Deus, que é a base da vida e da história. A graça não é dom paternalista de Deus, deixando o homem passivo. Ela é dom que Deus faz das possibilidades já contidas na estrutura de toda a criação, e principalmente da pessoa humana. Sem a atitude livre e responsável que procura descobrir, tomar posse e endereçar as possibilidades, o homem jamais encontrará a graça. A vida é dom de Deus que o homem deve descobrir e conquistar.

- Tudo se concretiza na tensão histórica que existe entre o presente efetivo de Deus, que abre seu dom nas possibilidades, e o presente-futuro do homem que busca, descobre, toma posse e dá endereço ao dom de Deus. E para que o dom se torne vida concreta, Deus coloca uma só condição: que o homem seja e continue sempre seu fiel aliando.

 

 4. Na liturgia da Palavra dominical. Encontramos textos desse livro no Ano B – 21º Domingo do Tempo Comum (Js 24, 1-2a.15-17.18b); Ano C – 4º Domingo da Quaresma (Js 5,9a.1-12).

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O Livro dos Números


Sobre o título:

O livro que nós chamamos Números é chamado pelos judeus ‘No deserto’, tomando como de costume as palavras iniciais para designá-lo. Este segundo título é descritivo, porque a narração começa com os israelitas no Sinai e os vai transladando até os campos de Moab. O título Números está também relacionado com um grande recenseamento do povo hebreu no deserto (1—4). É o mais complexo livro do Pentateuco. O translado se reparte em três unidades: 1,1—10,10, no Sinai preparando-se para a viagem; 10,11—20,13, em torno a Cades; 20,14—36,13, caminhada até Moab, preparando-se para a ocupação da terra.

Os quarentas anos exatos e os quarenta nomes do itinerário (cap. 33) não dissimulam a irregularidade da viagem, o caráter episódico dos relatos. Deve-se isso às tradições históricas ou lendárias, recolhidas e organizadas na obra. O livro é um alternar-se de leis ou disposições e historietas ou relatos, com alguns poemas intercalados. Nem sempre se descobre o critério de tal montagem, e o leitor moderno se sente desconcertado. O comentário terá de levar em conta essas alternâncias.

 

Temas dominantes:

a)      A terra prometida que dinamiza e polariza o movimento: desdenham-na por medo (13-14), começam a ocupá-la (32), vão reparti-la definindo normas de herança e designando cidades para levitas e de refúgio.

b)      Guerras externas e lutas internas: Madiã, Horma, Edom, Moab, Basã, o adivinho. Rebeliões: do povo contra os chefes (11-14; 21,4-9); de levitas e chefes (16-17).

c)      Protagonistas: como grupo corporativo, os levitas dominam este livro. Acima de todos, sobressai a figura heroica e crescente de Moisés.

 

Visão Geral e Mensagem:

Para os hebreus, a saída do Egito foi uma lenta e penosa caminhada em busca de uma terra. Neste livro a caminhada se transforma em majestosa marcha organizada de todo o povo, como uma procissão ou um exército. As tribos de Israel estão todas presentes, formando o esquadrão de Deus, cada uma com o seu estandarte e avançando em rigorosa formação. No centro de tudo vai a arca da Aliança. Isso mostra que o livro não pretende narrar fatos históricos, mas quer nos transmitir mensagens. Assim como os antepassados saíram da escravidão do Egito para chegar à terra de Canaã, do mesmo modo todo o povo de Deus é peregrino e caminha para o Reino prometido por Jesus. A organização mostra que dentro do povo de Deus. E a arca da Aliança no centro indica que, nessa caminhada, Deus está sempre presente no meio do seu povo.

O livro mostra também, e com muito realismo, que dentro dessa organização existem fortes conflitos (Nm 16), e que seus chefes estão sujeitos a fraquezas e desânimos, por mais importantes que eles sejam na comunidade.

Em Nm 22 a 24 temos a história de Balaão e a sua burrinha. Essa história mostra como um adivinho estrangeiro se torna um verdadeiro profeta de Deus. Com essa narração, o livro quer mostrar que dentro da caminhada do povo de Deus para a Terra Prometida deve haver sempre um lugar para o profeta.

O deserto foi o tempo da grande disciplina e pedagogia para o povo de Deus. Não basta estar livre: é preciso aprender a viver a liberdade e conquistá-la continuamente para não voltar a ser escravo outra vez. No deserto Israel teve que superar muitas tentações: acomodação, desânimo, vontade de voltar para trás, desconfianças de Deus e dos líderes, imprudência etc. Foi no confronto com essas situações que ele descobriu o que significa ser livre para construir uma sociedade justa e fraterna, alicerçada na liberdade e voltada para a vida. Visto sob essa perspectiva, o livro dos Números nos ensina que qualquer transformação profunda exige um longo período de educação e amadurecimento.

O livro dos Números é, ao mesmo tempo, o quadro idealizado do povo santo e a história muito realista da primeira fase de sua existência. Esse duplo título confere-lhe um interesse permanente. Na descrição idealizada, o povo de Deus poderá encontrar sempre um modelo. Não deve imitar servilmente as instituições que foram expressão concreta do ideal de Israel; mas pode ler ali alguns dos princípios aos quais deve adaptar a sua vida. Assim, a Igreja terá sempre necessidade de Números para lembrar-lhe que ela é um povo em marcha, um povo de profetas, regido pela palavra de Deus, dedicado ao culto do Senhor.

 

Na Liturgia da Palavra: Encontremos textos desse livro no 26º Domingo do Tempo Comum – Ano B; na 2ª feira da 3ª Semana do Advento; na 3ª feira da 5ª semana da Quaresma e também na 18ª Semana do Tempo Comum, ano ímpar, de 2ª a 5ª feira.    

O Livro do Levítico

  

Introdução – Todo o Pentateuco (os cinco primeiros livros da Bíblia) tem como autor Moisés. Ele seria o inspirador de toda a legislação hebraica antiga, criou a tradição jurídica e historiográfica de Israel; deu-lhe fundamento e suas grandes linhas.  Os semitas possuem um conceito especial de totalidade: no núcleo inicial já está incluído toda a evolução posterior, daí atribuir o conjunto inteiro ao autor do núcleo. Certamente são muitas as mãos que formam o Pentateuco, mas isso não exclui a sua inspiração: seus redatores, iluminados pelo Senhor, foram distinguindo, em suas fontes e conhecimentos, o que correspondia e o que não correspondia à mensagem que o Senhor por ele (ou por eles) queria comunicar aos homens. Assim iluminados ou inspirados, só incluíram no texto canônico do Pentateuco os elementos portadores de uma autêntica lição religiosa. É nesse mundo que situa-se o livro do Levítico.

 

1. Levítico – livro dos levitas ou sacerdotal; este trata das leis do culto (1,1—10,20) e da santidade do povo (11,1—27,34). Seu caráter é quase exclusivamente legislativo, e assim interrompe a narração dos acontecimentos. Estrutura do conteúdo:

 

1—7: Um ritual dos sacrifícios.

8—10: cerimonial de investidura dos sacerdotes (Aarão e filhos).

11—15: normas referentes ao puro e impuro.

16: ritual do grande dia das Expiações.

17—26: a lei da santidade. Um calendário litúrgico (23). Bênção e maldições (26).

27: (apêndice) condições de resgate de pessoas, animais e bens consagrados a Javé.

 

- Leitura cristã: O Levítico pode ser lido com mais proveito em conexão com os últimos capítulos de Ezequiel ou depois dos livros de Esdras e Neemias. 

 

2. Olhar panorâmico: Em Ex 40,16-33 temos a construção da Tenda do Encontro; Deus passa a habitar no meio do seu povo a partir desse local/símbolo. Deus legitima essa nova relação com o seu povo (Lv 1,1). Nos 27 capítulos que compõem o nosso livro, Deus transmite a seu povo “suas leis e costumes”, é praticando-as que o homem tem vida.

- A preocupação é o bom uso dessa ‘tenda’, para que seja verdadeiramente um lugar de ‘encontro’. A descrição minuciosa é para que nenhum erro ritual (1—10), nenhuma impureza física (11—16) ou uma infidelidade moral (17—26) causem obstáculo a essa comunhão vital.

- Nem todo o conteúdo do culto de Israel está expresso nesse livro. Talvez no saltério encontremos os cantos e orações que acompanhavam tais ritos. É bem verdade que os profetas e sábios lembravam a Israel que a execução do rito não bastava para proporcionar a salvação, mas o autor quer fazer penetrar na consciência dos fiéis que a comunhão com Deus é a verdade última do homem.

- O livro, mesmo trazendo uma redação coerente, traz elementos rituais que remontam diversas épocas, particularmente o momento em que o poder político do sacerdócio vai aumentando, já que não existe mais rei e o profetismo está em vias de desaparecimento.

- 1ª Seção (1—7): as diversas categorias de sacrifícios que o Israelita pode (ou deve) oferecer a Deus, em certas circunstâncias. Não se fala sobre a origem ou significação dos sacrifícios e rituais. Se deduz que seus ritos tiveram inspiração nas religiões do antigo Oriente e que deu a estes ritos um conteúdo novo, correspondente à sua visão do mundo e ao seu conhecimento de Deus.

- 2ª Seção (8—10): As cerimônias que acontecem quando Aarão e seus filhos foram investidos de poder sacerdotal. Em ligação com o livro do Êxodo, os sacerdotes aparecem aqui claramente na sua função mediadora o que implica uma exigência particular de santidade (intermediário entre Deus e o povo).

- 3ª Seção (11—16): Elenca diversas categorias de impurezas que impedem o homem de entrar em contato com Deus.

- 4ª Seção (17—26): Visão global: código ou lei da santidade. Se Deus é santo, este povo que escolheu, que lhe é consagrado, deve procurar tudo o que facilita a comunhão com Deus e evitar tudo o que, física ou moralmente, põe obstáculo a essa comunhão vital:

* não consumir o sangue, que é a sede da vida dada por Deus;

*recusar quaisquer relações sexuais anormais;

* respeitar a Deus enquanto único Deus, e o homem enquanto criatura de Deus;

* garantir a dignidade do sacerdócio e dos sacrifícios e celebrar fielmente as festas e os anos santos.

 

Conclusão: entre os livros do AT, é o menos lido pelos cristãos. Não é de acesso fácil, e parece só falar de práticas que caducaram em virtude da nova aliança. Mas isso não quer dizer que não tenham nenhum valor para nós hoje. Toda essa prática ritual, herdada e renovada, procurou celebrar em concordância coma fé que professava. Seu objetivo era exprimir e realizar a reconciliação e a comunhão do povo santo com o Deus santo. Por isso que os profetas zelavam pela pureza da fé de Israel.

- Festas e ritos variam de acordo com os tempos e os lugares, mas nelas permanece o desejo de exprimir a fé pela festa comunitária e pela linguagem do corpo. Mesmo as críticas dos profetas e o abandono das práticas do antigo judaísmo, não se pode eliminar o valor deste livro. A presença dele é responder à necessidade humana de exprimir a fé por gestos religiosos, e ao mesmo tempo em que anuncia e prepara a vinda daquele que traz nas suas palavras e realiza em sua vida a reconciliação e a comunhão do homem com Deus.

 

- Um texto para a nossa reflexão: Lv 19,1-2.17-18 (7º Domingo do Tempo Comum – Ano A).

 V. 2: “Sede santos...” Convite de Deus dirigido a seu povo. O que é ser santo? Aquele que viveu de maneira exemplar, que foi para o céu, que é invocado com fé, pode até fazer milagres... dizemos nós. Na Bíblia, santo tem um sentido mais amplo: separado, consagrado a Deus.

Santos eram os templos: estavam ‘separados’ do mundo profano e reservados à divindade. Quem ultrapassa a soleira de um templo sai do mundo dos homens e entra no mundo de Deus, por isso devia se submeter a inúmeros e complicados rituais de purificação.

Santos eram os objetos: não podiam ser misturados com as coisas do uso cotidiano.

Santos eram as pessoas: que conduziam uma vida diferente das demais.

O mais santo de todos é Deus: Ele é completamente diferente de tudo que existe.

O que exige Deus do seu povo, quando lhe pede para ser santo? Israel entendeu que era viver isolado dos outros povos, por isso evitavam qualquer contato com aqueles que poderiam conduzir a idolatria. Para conservar essa ‘santidade’ desmedidamente as proibições: entrar na casa de estranhos, tomar refeições com eles e até mesmo apertar-lhe as mãos. Mas o livro do Levítico mostra um modo diferente de entender a santidade. Nada de separação física de outros homens, nada de observância de códigos e de prescrições. Para ser santo é suficiente levar uma vida diferente, uma vida que se concretize nas seguintes prescrições: “não odiar o irmão, renunciar ao rancor e à vingança, amar o próximo com a si mesmo”.

Esse é o ponto máximo que chegou a moral do AT. Todavia esse amor que se exige não é universal, é restrito aos membros do povo de Israel. Jesus levará esse amor até as últimas consequências. Ele mostrará que o ‘irmão’ que deve ser amado, não é tão somente aquele que pertence a própria etnia, mas são todos os homens, também o estranho, o pagão, o inimigo.